sexta-feira, 26 de julho de 2013

Daltonismo existencial

Eu vejo o mundo em outro tom, mas eles não entendem isso. Me dizem que estou doente, me entopem de remédios. Isso tudo, só porque vejo a vida de forma diferente. 
Eu não vejo alegria em cada nascer do sol. A cada dia, crianças morrem de fome, meninas são estupradas. Pessoas são assassinadas. O mundo gira na velocidade do pânico. Como ficar contente com isso?
Eu não vejo alegria na criança que nasce. Ela nasce chorando, seu choro já nos mostra o quanto viver dói. Ela sai da proteção do útero materno para sofrer nas garras do mundo. 

Eu escuto o que os outros dizem. Eles tentam me enganar. Querem que eu veja a luz no escuro, mas a vela há muito se apagou. Também escuto o que não dizem, escuto a tristeza de cada olhar. As marcas do corpo da esposa de apanha do marido todos os dias. O efeito das palavras usadas indiscriminadamente. Os adolescentes que não tem confiança porque, quando crianças, foram maltratados, hostilizados. Alguns pensam "crianças não tem sentimentos". Eles não sabem o que dizem. 

Eu coloco minha máscara, simulo um sorriso. A sociedade só quer isso. Ela não quer saber se estou bem, o importante é sorrir. Então eu me engano para não ter que me explicar. Finjo ter esperança. Luto com todas as forças que tenho, mas o mundo, Ah, o mundo nunca ira mudar. Cada coisa tem seu lugar, o mundo é um campo de obstáculos e temos que ultrapassar mesmo sem querer. Quem desiste da corrida é fraco. Mas, as vezes, a insistência é tolice. 

Eu finjo pintar o mundo de uma cor que eu nunca vi. Eu vejo, a cada segundo, minha vida por um tris. 
Eu caminho sozinha, sentindo, sofrendo, chorando. Eles vivem a vida deles sempre se enganando.

terça-feira, 23 de julho de 2013

(Des)acerto

O sinal tocou anunciando que é hora de entrar na sala de aula. A turma está toda agitada, afinal é o último dia de aula. Levou um bom tempo até que os professores conseguissem reunir os alunos dentro da sala. Começou então a espera que parece eterna, alguns roíam as unhas e outros quase choravam enquanto a professora chamava o nome de cada um por ordem alfabética na lista de chamada. A cada nome, uma comemoração por ser aprovado ou lamento por ter que repetir o ano. Enfim chegou minha vez.
- Lucas?
Ao ouvir meu nome, instantaneamente meu coração disparou. Eu fiquei tenso e quase não consegui responder.  – Aqui professora.
Ela me olhou com uma expressão de compaixão, percebi logo que não viria uma boa notícia.
- Não atingiu a pontuação necessária, mas ainda tem uma chance. A prova de recuperação será próxima semana. Farão a prova juntas a turma A e a turma B.
Suspirei tristemente, minha mãe não vai gostar de saber disso.
Os nomes seguintes passaram indistintos e depois fui para casa.

Já em casa, minha mãe brigou um pouco comigo, mas foi menos do que eu esperava. Ela disse que devo passar a semana estudando, nada de sair com os amigos até passar essa prova. E assim passei final de semana e a semana toda, na noite da quinta-feira eu mal consegui dormir.

A  sexta-feira amanheceu chuvosa, o dia parecia triste, o que me causou um mau presságio.
Tomei banho, me arrumei e tomei o café da manhã.
- Boa prova filho. Desse-me minha mãe quando me viu passa em frente ao quarto dela.
Cheguei à escola e vi vários alunos esperando para fazer a prova de recuperação. É ótimo ver que não sou o único fracassado. Uma pessoa em especial me chamou atenção. Natália, a garota mais nerd da turma estava lá. Como pode ela está de recuperação? Há dois anos eu nutro uma paixão secreta por ela, mas não tive coragem de me declarar. O que uma nerd pode querer com um garoto burro como eu?
Sentei no meu lugar de costume, no fundo da sala, mas quando a professora chegou, ela me mandou sentar na frente. Justo ao lado da Natália.
Fizemos a prova e, quando todos terminaram, a professora avisou que o resultado sairia dali a duas semanas. Ela tinha provas de várias turmas para corrigir. Que ótimo, duas semanas de tensão!

Eu fui para o pátio lanchar para depois ir embora. Para minha surpresa uma voz me chamou.
-Lucas! Como você acha que se saiu na prova?
Virei na direção dessa voz sem acreditar, era Natália que falava comigo. Respondi gaguejando.
-Aacho que fui mal.
-Que pena. Ela disse.
Passamos um tempo conversando e eu não resisti. Confessei o meu amor por ela. Quase choro quando ela me disse que também me amava. Eram lágrimas de felicidade, mas tive que contê-las. Meu pai me ensinou que homens não choram.
Aproximei-me dela bem devagar, meus lábios estavam quase tocando os dela. Eu estava com medo, meu coração parecia que ia sair do meu peito. Ela sussurrou:
-Te amo.
-Eu também te amo, respondi. E então, beijei-a.
Nosso beijo foi delicado. O cheiro dela invadia minhas narinas, era suave. Natália era delicadeza em pessoa. Meus dedos acariciavam seus lindos cabelos ruivos.
No mesmo dia eu fiz o pedido de namoro e ela aceitou. Ficamos juntos a tarde inteira. Conversamos, tomamos sorvete. Descobri que ela gosta de ler, eu nunca curti muito, mas ouvi-la falando sobre os seus livros favoritos foi uma das melhores sensações que eu já tive. Seus olhos brilhavam. Ela estava linda. Despedimos-nos no fim da tarde com a promessa de voltarmos a nos ver na manhã seguinte.
Contei a novidade a minha mãe que me parabenizou e disse que queria conhecê-la. Mas não deixei de levar bronca por achar que fui mau na prova. Dormi aquela noite com a lembrança do beijo de Natália. Do meu primeiro beijo.
Encontrei minha namorada no dia seguinte, e no próximo... Descobríamos cada vez mais coisas que gostávamos um no outro. As duas semanas de espera do resultado acabaram sendo semanas mágicas.
No dia marcado, fui à escola receber minha prova. Assim que vi meu amor, dei-lhe um beijo e fomos de mãos dadas para a sala de aula. A professora entregou as provas, mas não tive coragem de olhar a minha. Natália recebeu a dela e se dirigiu a minha direção.
- Passei amor. Disse-me com um sorriso nos lábios.
- Ainda não tive coragem de olhar a minha.
- Deixa de ser bobo, olha logo.
- Nota quatro. Parece brincadeira, mas vou ter que repetir o terceiro ano.
Saímos da sala um pouco triste. Minha mãe quase ma mata, mas não havia mais nada para fazer. Passei o restante das férias curtindo meu amor.

Faltavam dois dias para começarem as aulas. Pela manhã, Natália me disse que precisava conversar comigo. Notei certa urgência e tristeza. Encontramos-nos no parque. As palavras dela partiram meu coração.
-Vou ter que ir embora. Minha família vai se mudar e farei faculdade em outro estado.
Fiquei sem reação. As lágrimas rolaram e eu não pude evitar. Ela me beijou. Seus olhos também derramavam sua tristeza. Nosso beijo foi regado pelas lágrimas dos dois. Foi salgado. Foi doloroso. Foi intenso. Ficamos juntos o resto do dia.
Dez minutos depois de chegar em casa, eu ainda não havia conseguido parar de chorar. Antes de vir embora tentei convencê-la a encarar um namoro a distância, mas nem eu tinha certeza se daria certo. Ela me disse que nosso amor é de outras vidas e que, um dia, ficaremos juntos. Não sei se acredito nessa história.
Adormeci e tive um sonho. Natália me beijava no pátio da escola, onde demos nosso primeiro beijo, mas diferente do primeiro, este não era um beijo delicado. Era forte, urgente. Acordei ofegante. Chorei ao imaginar que poderia nunca mais tê-la comigo.
As aulas vão começar, mas eu não reclamo mais por ter de repetir o último ano do ensino médio. Se não fosse minha falha, minha nota ruim, eu não teria vivido o mês mais intenso da minha vida. O mês mais feliz que tive até hoje.  
São oito da manhã e me ponho a recordar o que aconteceu desde o dia da prova de recuperação. O vôo dela estava previsto para as sete da manhã. Eu não fui ao aeroporto, pois não suportaria vê-la partir. Natália já deve ter ido embora e talvez eu não volte a vê-la.
Com isso, ela apenas confirmou o que eu já sabia: Pássaros não nasceram para viver em gaiolas. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Edifício em construção


Hoje visitei um edifício em construção. Passei por cada andar imaginando quantas famílias aquele prédio ira abrigar. Fui até a cobertura e me pus a pensar:
De cima da cobertura de um edifício em construção, a vida parece pequena em sua vasta imensidão. Areia, tijolo, cimento.  Batem, furam, empilham. Bebem, fumam, gritam. Edificação.
De cima da cobertura de um edifício em construção, o vento toca a pele, o céu parece próximo. A paz está presente. Apreciação. 
Tantas casas, tantas ruas. Tantas pessoas e animais. Cada pessoa um pensamento. Pensamento gera ação. Ação da sociedade. Sociedade em construção.
Política, Saúde, governo, educação.  Desvio, roubalheira, “pão e circo”, mensalão.
De cima da cobertura de um edifício em construção, eu vejo um viaduto, terrenos ocultos, lixo em decomposição.
Debaixo do viaduto, vive uma criança. Inocente ela dança, usa imaginação.
Debaixo do viaduto, mora a fome e a miséria.  A histeria da guerreira que implora um pedaço de pão.
De cima da cobertura, a riqueza julga a pobreza. Berço de violência e tristeza. Da paz a redução.
Debaixo do viaduto, o pobre sabe o que diz. Foi o voto do cidadão que escolheu a representação que hoje brinda a corrupção, no nosso infeliz país. 

domingo, 21 de julho de 2013


"Querida amiga,
Faz algum tempo que não nos falamos, mas você sempre foi minha confidente. Como tenho andado muito triste e sozinha resolvi escrever. As férias chegaram e essa época é a pior. Lembra do Marcelo? Você estava comigo quando o conheci. Eu tinha doze anos e ele se tornou um bom amigo. Fora você, ele era a única outra pessoa que ainda ficava perto de mim. Acabamos nos apaixonando e namoramos algum tempo. Mas hoje ele foi embora. Acabamos de brigar, mais uma vez. Ele não suporta mais conviver com uma garota bipolar. Dias depressivos. Lágrimas incontáveis, automutilação. Ele disse que não suporta ver o que faço comigo. Que ele sente dor ao ver cada cicatriz. Mas ele não entende.
Diz que me ama, mas faz chantagem porque não quero ir para cama com ele. Ele não respeita meus traumas, não respeita meu corpo. Como pode me amar?  Sempre nos encontrávamos na casa dele e, com isso, ele não sabe o que se passa na minha casa. Não sabe tudo que tenho que suportar. “Depressão é frescura”, mas ele não convive com o que eu sinto.
Dias maníacos.  Agitação, angústia. Descontrole. O outro lado da moeda é tão ruim quanto o primeiro.
Acho que ele tem razão. Eu também não gosto de viver com uma garota bipolar. Mas não tenho alternativa, pois sou essa garota.
Vou parar de escrever agora. É hora de tomar meus remédios, vã tentativa de me controlar, mas depois voltaremos a nos comunicar.

Com carinho, Fernanda."

sábado, 13 de julho de 2013

Ignorados

Ruas escuras,
Caminhos sombrios.
Homens nojentos, 
Doentia ambição.

Sujeira. Fumaça.
Violência. Silêncio.
Ópio. Delírio. 
Lamento. Solidão. 

Criança inocente,
Caminha sozinha.
Sonha contente.
Usa a imaginação. 

Sorriso. Brinquedo. 
Boneca. Casinha. 
Livro. Escola. 
Futuro. Realização. 

Estradas cruzadas.
Inocente confia.
Imprudência. segredo. 
O medo encobria. 

Momento. Suor.
Ofegante explosão.
Lágrimas. tormento.
Dor. Sofrimento.
Suicídio. Prisão?!


sexta-feira, 12 de julho de 2013

De: Helena Para: Antônio


“Oi amor,
O dia amanheceu chuvoso, o frio me fez desejar ter você para me aquecer. Nunca imaginei que poderia sentir tanto a presença de alguém ausente, mas você está em todos os lugares.  Seu cheiro está no travesseiro, sua escova ainda está junto a minha no banheiro.  Ainda preparo seu café todos os dias, mesmo sabendo que você não virá tomar. Faz oitos meses, mas ainda não acredito no que aconteceu.
Nosso bebê chuta muito, é uma menina. O nascimento está previsto ainda para essa semana. Anseio vê-la para poder procurar nela cada pedacinho seu. Pena que você se foi antes mesmo de saber que ela estava a caminho.  Ela vai se chamar Júlia. Você sempre me disse que, se tivesse uma filha, seria esse o nome dela.
Todos os dias a lembrança volta a minha mente, eu tinha acabado de receber o resultado do teste de gravidez. Estava louca para te contar. Ligaram-me dizendo que você estava no hospital. O acidente foi grave, um carro bateu na sua moto. Maldita moto! Mais um pouco e você a trocaria por um carro, então, talvez isso não tivesse acontecido. Você ficou em coma, por três meses, nunca retornou...”

Nesse momento, as lágrimas rolam soltas me impedindo de terminar a carta. Assim mesmo, inacabada, guardo junto às outras. Uma pilha de cartas em uma caixa, cartas que Antônio nunca irá ler. 

Um ano


Há exatamente um ano nascia meu blog. Primeiro chamei-o palavras ao vento. Passou para a voz da emoção, Warrior for life e, finalmente, Idiossincrasia. Espero parar por aqui. Era apenas uma aventura, um passatempo. Hoje é quase um filho. Escrevo por amor e amo meu blog que é a reunião dos meus escritos. Espero que está data se repita muitos anos mais. 

Parabéns Idiossincrasia!!!!