Cecília era uma garota conhecida
por todos, não pela sua beleza, em que não havia nada incomum, tinha olhos
castanhos e uma face redonda emoldurada por curtos cabelos negros. Cecília era
conhecida pela sua alegria. Em todo lugar que entrava ela espalhava uma luz que
acalmava a todos. Tinha o dom de fazer as piadas certas na hora certa, e com
isso garantia risadas aonde quer que andasse. Era uma menina muito independente,
saiu de casa aos 18 anos para morar em outra cidade, trabalhava em um museu e no
tempo livre estudava arte. Às vezes, Cecília agia por impulso, o que fazia que
nem sempre as coisas dessem certo, mas isso não a fazia desistir, ela tinha uma
imensa alegria de viver e isso a encorajava até quando tudo estava dando
errado.
Aos 21 anos Cecília vivia muito
bem, sozinha em seu belo apartamento. Meu apartamento ficava no mesmo andar que
o dela. Sua sensibilidade e sensualidade acabaram por me conquistar, mas ela só me
queria como amigo. Cecília evitava qualquer possibilidade de viver uma grande
paixão. Eu me contentava em ter a amizade dela, todas as tardes de domingo nos encontrávamos
em meu apartamento para debater sobre arte, música e ensinar um ao outro o que aprendíamos
durante a semana. Minha mãe sempre preparava um jantar, ela me dizia que
Cecília era uma menina de diamante. Em
um desses domingos eu não resisti, minha mãe havia saído para por a mesa e meu
amor foi mais forte que a razão, estando eu a sós com Cecília, a beijei. De
início, Cecília correspondeu ao meu beijo, lentamente e carinhosamente, naquele
momento, eu percebi que ela me também me amava. Porém de súbito tudo mudou, ela
se afastou de mim com rispidez e a vi cair aos prantos. Foi então que Cecília
me contou que toda sua felicidade não passava de um mero disfarce. Que saiu de
casa porque seu padrasto a violentava e sua mãe nada podia fazer, já que
apanhava dele. Que construiu uma vida leve, para mascarar o peso da dor que
carregava no peito. Ouvir sua confissão dilacerou meu coração, eu compreendi
que precisava protegê-la, eu a amei mais ainda. Falei para ela que não
precisava me temer, que eu a protegeria e que ninguém, nunca mais a faria mal.
Ela me disse que precisava ir e saiu sem ao menos esperar pelo jantar.
Dois dias depois, Cecília veio me
ver. Sem dizer uma palavra, ela me tocou de leve os lábios. Convidei-a para
entrar e ela aceitou. Sentamos no sofá e eu ia dizê-la que a amo, mas suavemente
ela encostou os dedos em meus lábios para me silenciar. Aconchegou-se em meus
braços e assim ficamos pelo que me pareceram horas, as horas mais felizes de
minha vida. Ali, nos meus braços, a garota forte e independente, parecia uma
criança carente. E eu estava disposto a cuidar dela para sempre. Adormecemos-nos
no sofá. Quando acordei já era noite, procurei Cecília e ela não estava em
nenhum lugar. Fui ao seu apartamento, toquei a campainha diversas vezes e ela
não atendeu. Voltei para casa e dormi com a lembrança do calor de Cecília nos
meus braços.
No dia seguinte fui visitá-la,
mas me surpreendi ao encontrar seu apartamento vazio, estava à venda. Como o
vento, que sopra e refresca para logo ir embora, Cecília foi um sopro de
alegria em minha vida. Ela me deu os momentos mais felizes que já tive, porém o
vento também cessa e com meu sopro não foi diferente. Por muito tempo a
procurei, entretanto nunca mais voltei a vê-la.
Todos os dias eu lutava para
manter a lembrança de Cecília em minha memória. Mas sempre que passava por seu
apartamento vazio, eu me perguntava se Cecília não teria sido um sonho...

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