quarta-feira, 3 de julho de 2013

Cecília

Cecília era uma garota conhecida por todos, não pela sua beleza, em que não havia nada incomum, tinha olhos castanhos e uma face redonda emoldurada por curtos cabelos negros. Cecília era conhecida pela sua alegria. Em todo lugar que entrava ela espalhava uma luz que acalmava a todos. Tinha o dom de fazer as piadas certas na hora certa, e com isso garantia risadas aonde quer que andasse. Era uma menina muito independente, saiu de casa aos 18 anos para morar em outra cidade, trabalhava em um museu e no tempo livre estudava arte. Às vezes, Cecília agia por impulso, o que fazia que nem sempre as coisas dessem certo, mas isso não a fazia desistir, ela tinha uma imensa alegria de viver e isso a encorajava até quando tudo estava dando errado.

Aos 21 anos Cecília vivia muito bem, sozinha em seu belo apartamento. Meu apartamento ficava no mesmo andar que o dela. Sua sensibilidade e sensualidade acabaram por me conquistar, mas ela só me queria como amigo. Cecília evitava qualquer possibilidade de viver uma grande paixão. Eu me contentava em ter a amizade dela, todas as tardes de domingo nos encontrávamos em meu apartamento para debater sobre arte, música e ensinar um ao outro o que aprendíamos durante a semana. Minha mãe sempre preparava um jantar, ela me dizia que Cecília era uma menina de diamante.  Em um desses domingos eu não resisti, minha mãe havia saído para por a mesa e meu amor foi mais forte que a razão, estando eu a sós com Cecília, a beijei. De início, Cecília correspondeu ao meu beijo, lentamente e carinhosamente, naquele momento, eu percebi que ela me também me amava. Porém de súbito tudo mudou, ela se afastou de mim com rispidez e a vi cair aos prantos. Foi então que Cecília me contou que toda sua felicidade não passava de um mero disfarce. Que saiu de casa porque seu padrasto a violentava e sua mãe nada podia fazer, já que apanhava dele. Que construiu uma vida leve, para mascarar o peso da dor que carregava no peito. Ouvir sua confissão dilacerou meu coração, eu compreendi que precisava protegê-la, eu a amei mais ainda. Falei para ela que não precisava me temer, que eu a protegeria e que ninguém, nunca mais a faria mal. Ela me disse que precisava ir e saiu sem ao menos esperar pelo jantar.

Dois dias depois, Cecília veio me ver. Sem dizer uma palavra, ela me tocou de leve os lábios. Convidei-a para entrar e ela aceitou. Sentamos no sofá e eu ia dizê-la que a amo, mas suavemente ela encostou os dedos em meus lábios para me silenciar. Aconchegou-se em meus braços e assim ficamos pelo que me pareceram horas, as horas mais felizes de minha vida. Ali, nos meus braços, a garota forte e independente, parecia uma criança carente. E eu estava disposto a cuidar dela para sempre. Adormecemos-nos no sofá. Quando acordei já era noite, procurei Cecília e ela não estava em nenhum lugar. Fui ao seu apartamento, toquei a campainha diversas vezes e ela não atendeu. Voltei para casa e dormi com a lembrança do calor de Cecília nos meus braços.

No dia seguinte fui visitá-la, mas me surpreendi ao encontrar seu apartamento vazio, estava à venda. Como o vento, que sopra e refresca para logo ir embora, Cecília foi um sopro de alegria em minha vida. Ela me deu os momentos mais felizes que já tive, porém o vento também cessa e com meu sopro não foi diferente. Por muito tempo a procurei, entretanto nunca mais voltei a vê-la.

Todos os dias eu lutava para manter a lembrança de Cecília em minha memória. Mas sempre que passava por seu apartamento vazio, eu me perguntava se Cecília não teria sido um sonho...

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