terça-feira, 23 de julho de 2013

(Des)acerto

O sinal tocou anunciando que é hora de entrar na sala de aula. A turma está toda agitada, afinal é o último dia de aula. Levou um bom tempo até que os professores conseguissem reunir os alunos dentro da sala. Começou então a espera que parece eterna, alguns roíam as unhas e outros quase choravam enquanto a professora chamava o nome de cada um por ordem alfabética na lista de chamada. A cada nome, uma comemoração por ser aprovado ou lamento por ter que repetir o ano. Enfim chegou minha vez.
- Lucas?
Ao ouvir meu nome, instantaneamente meu coração disparou. Eu fiquei tenso e quase não consegui responder.  – Aqui professora.
Ela me olhou com uma expressão de compaixão, percebi logo que não viria uma boa notícia.
- Não atingiu a pontuação necessária, mas ainda tem uma chance. A prova de recuperação será próxima semana. Farão a prova juntas a turma A e a turma B.
Suspirei tristemente, minha mãe não vai gostar de saber disso.
Os nomes seguintes passaram indistintos e depois fui para casa.

Já em casa, minha mãe brigou um pouco comigo, mas foi menos do que eu esperava. Ela disse que devo passar a semana estudando, nada de sair com os amigos até passar essa prova. E assim passei final de semana e a semana toda, na noite da quinta-feira eu mal consegui dormir.

A  sexta-feira amanheceu chuvosa, o dia parecia triste, o que me causou um mau presságio.
Tomei banho, me arrumei e tomei o café da manhã.
- Boa prova filho. Desse-me minha mãe quando me viu passa em frente ao quarto dela.
Cheguei à escola e vi vários alunos esperando para fazer a prova de recuperação. É ótimo ver que não sou o único fracassado. Uma pessoa em especial me chamou atenção. Natália, a garota mais nerd da turma estava lá. Como pode ela está de recuperação? Há dois anos eu nutro uma paixão secreta por ela, mas não tive coragem de me declarar. O que uma nerd pode querer com um garoto burro como eu?
Sentei no meu lugar de costume, no fundo da sala, mas quando a professora chegou, ela me mandou sentar na frente. Justo ao lado da Natália.
Fizemos a prova e, quando todos terminaram, a professora avisou que o resultado sairia dali a duas semanas. Ela tinha provas de várias turmas para corrigir. Que ótimo, duas semanas de tensão!

Eu fui para o pátio lanchar para depois ir embora. Para minha surpresa uma voz me chamou.
-Lucas! Como você acha que se saiu na prova?
Virei na direção dessa voz sem acreditar, era Natália que falava comigo. Respondi gaguejando.
-Aacho que fui mal.
-Que pena. Ela disse.
Passamos um tempo conversando e eu não resisti. Confessei o meu amor por ela. Quase choro quando ela me disse que também me amava. Eram lágrimas de felicidade, mas tive que contê-las. Meu pai me ensinou que homens não choram.
Aproximei-me dela bem devagar, meus lábios estavam quase tocando os dela. Eu estava com medo, meu coração parecia que ia sair do meu peito. Ela sussurrou:
-Te amo.
-Eu também te amo, respondi. E então, beijei-a.
Nosso beijo foi delicado. O cheiro dela invadia minhas narinas, era suave. Natália era delicadeza em pessoa. Meus dedos acariciavam seus lindos cabelos ruivos.
No mesmo dia eu fiz o pedido de namoro e ela aceitou. Ficamos juntos a tarde inteira. Conversamos, tomamos sorvete. Descobri que ela gosta de ler, eu nunca curti muito, mas ouvi-la falando sobre os seus livros favoritos foi uma das melhores sensações que eu já tive. Seus olhos brilhavam. Ela estava linda. Despedimos-nos no fim da tarde com a promessa de voltarmos a nos ver na manhã seguinte.
Contei a novidade a minha mãe que me parabenizou e disse que queria conhecê-la. Mas não deixei de levar bronca por achar que fui mau na prova. Dormi aquela noite com a lembrança do beijo de Natália. Do meu primeiro beijo.
Encontrei minha namorada no dia seguinte, e no próximo... Descobríamos cada vez mais coisas que gostávamos um no outro. As duas semanas de espera do resultado acabaram sendo semanas mágicas.
No dia marcado, fui à escola receber minha prova. Assim que vi meu amor, dei-lhe um beijo e fomos de mãos dadas para a sala de aula. A professora entregou as provas, mas não tive coragem de olhar a minha. Natália recebeu a dela e se dirigiu a minha direção.
- Passei amor. Disse-me com um sorriso nos lábios.
- Ainda não tive coragem de olhar a minha.
- Deixa de ser bobo, olha logo.
- Nota quatro. Parece brincadeira, mas vou ter que repetir o terceiro ano.
Saímos da sala um pouco triste. Minha mãe quase ma mata, mas não havia mais nada para fazer. Passei o restante das férias curtindo meu amor.

Faltavam dois dias para começarem as aulas. Pela manhã, Natália me disse que precisava conversar comigo. Notei certa urgência e tristeza. Encontramos-nos no parque. As palavras dela partiram meu coração.
-Vou ter que ir embora. Minha família vai se mudar e farei faculdade em outro estado.
Fiquei sem reação. As lágrimas rolaram e eu não pude evitar. Ela me beijou. Seus olhos também derramavam sua tristeza. Nosso beijo foi regado pelas lágrimas dos dois. Foi salgado. Foi doloroso. Foi intenso. Ficamos juntos o resto do dia.
Dez minutos depois de chegar em casa, eu ainda não havia conseguido parar de chorar. Antes de vir embora tentei convencê-la a encarar um namoro a distância, mas nem eu tinha certeza se daria certo. Ela me disse que nosso amor é de outras vidas e que, um dia, ficaremos juntos. Não sei se acredito nessa história.
Adormeci e tive um sonho. Natália me beijava no pátio da escola, onde demos nosso primeiro beijo, mas diferente do primeiro, este não era um beijo delicado. Era forte, urgente. Acordei ofegante. Chorei ao imaginar que poderia nunca mais tê-la comigo.
As aulas vão começar, mas eu não reclamo mais por ter de repetir o último ano do ensino médio. Se não fosse minha falha, minha nota ruim, eu não teria vivido o mês mais intenso da minha vida. O mês mais feliz que tive até hoje.  
São oito da manhã e me ponho a recordar o que aconteceu desde o dia da prova de recuperação. O vôo dela estava previsto para as sete da manhã. Eu não fui ao aeroporto, pois não suportaria vê-la partir. Natália já deve ter ido embora e talvez eu não volte a vê-la.
Com isso, ela apenas confirmou o que eu já sabia: Pássaros não nasceram para viver em gaiolas. 

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